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A
aventura
E lá fui eu percorrer uma dessas Trilhas do Ouro,
dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Conhecer a pouco
comentada travessia saindo de Campos Novos de Cunha, que
une esportes de aventura e natureza.
Fui
recebido pelo Marcelo Gutierrez, que dirige a empresa de turismo
com o mesmo nome do roteiro - Trilha do Ouro. O Marcelo comercializava
trutas na região durante dez anos quando, em 2002, perdeu
tudo numa tromba d'água. Desde então, desenvolve atividades
com o turismo de aventura, contratando moradores locais como guias,
desviando-os de atividades ilegais de carga e extração
de palmito para trabalhos legais, acompanhando turistas. Outra ajuda
à população local é a escola que montou
para crianças de primeira à quarta série, com
o apoio da prefeitura local, que cede um professor para as aulas.
Em
nosso primeiro dia de atividade, saímos para conhecer algumas
cachoeiras perto do Rancho Recando da Bocaina (GPS 23k, 0528508
/ 7463296), nossa base por alguns dias. Foi ótimo descobrir
que iríamos de bicicleta, esquentando o sangue numa estrada
fácil de terra, até a entrada da trilha que segue
para a Cachoeira do Escorrega (GPS 23 K, 0530397/7463629). Paramos
para o lanche de trilha e, lógico, como não poderia
faltar, um mergulho nas gélidas águas do rio Guaripu.
Mais alguns minutos de caminhada seguindo trilha abaixo e chegamos
a outra queda d'água, a Cachoeira da Paca (GPS 23K, 0530702/7463841).
Inevitável não cair na água pela segunda vez.
O sol ainda iluminava um cantinho do lugar esquentando-nos um pouco.
Já era final de tarde quando voltamos ao rancho.
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O
rancho não tem energia elétrica. Acendem-se
tochas do lado de fora da casa e velas, dentro. Mas não
se assuste, o chuveiro tem água quente, a gás,
e a comida de fogão a lenha é fantástica.
Não perca a oportunidade de usar o telescópio
que fica à disposição dos hóspedes,
pois longe da civilização, o céu é
maravilhoso pela ausência de poluição
e luzes.
No
segundo dia, abandonamos as bikes e partimos a pé
para o Poço Grande (GPS 23K, 0530664/ 7459441) com
o objetivo de acamparmos por lá para aproveitar o
máximo do lugar. As
mochilas
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foram
levadas
por burros,
dentro de balaios, dando a impressão de uma viagem no tempo.
O lugar é uma daquelas dádivas da natureza. Numa curva
do Rio do Funil, a água escorrega por um degrau de pedra, formando
uma pequena queda que deságua na enorme piscina natural do
poço. Depois de muito nadar e jogar
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conversa
fora, uma sutil neblina veio nos abraçar. Mais alguns
minutos e o céu desabou! A lona de plástico
ficou pequena e apertada para todos nós, mas o astral
do grupo estava lá em cima e as risadas atraves-
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savaram
a noite adentro. "Chuva com trovão e raio dura pouco.
O problema são aquelas que chegam de mansinho, sem nenhum barulho",
comentou o Nico. Ele é um dos nativos que trabalha como guia
e sua sabedoria sobre os processos naturais da região é
de deixar qualquer um de boca aberta. Simples e objetivo, conversar
com o Nico foi uma verdadeira aula de história natural. mais
um ótimo motivo para se conhecer esse lugar com sua cultura
local.
| Acordei
por volta de 5:20 h para tentar tirar algumas fotos do sol nascendo.
Foi só colocar a cara para fora da barrada e me deparar
com aquela mesma neblina que precedeu a chuva do dia anterior.
Voltei a dormir. O retorno ao rancho foi mais tranqüilo
do que eu imaginava, considerando a quantidade de água
que havia caído durante a noite. Mas, até então,
só havíamos conhecido a região em torno
do rancho e a travessia, com os seus calçamentos originais
de pedra, ainda estava por vir. |
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O
ponto alto da região é a conhecida Cachoeira
dos Veados. Suas duas quedas chegam a ter mais de 200 m
de altura, impressionando todos que passam por ali. E o
melhor de tudo: ela está no coração
do parque, ou seja, é necessário fazer qualquer
uma das travessias para se conhecer o lugar. A cachoeira
fica próxima do Rancho Mameluco (GPS 23k, 0538995/
7468928).
Não
são todos os trechos do calçamento ilegal
que ficaram conservados. Observando os pontos preservados,
podemos entender como os envolvidos na construção
foram exigentes. As
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calhas
de drenagem e o meio-fio na lateral são admiráveis.
Minha mente foi longe e imaginei pessoas, burros, cavalos e cargas
subindo e descendo a trilha. Assaltos eram constante e acidentes também,
pois a Mata Atlântica é um lugar úmido, deixando
os enormes blocos de pedra escorregadios.
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O
Rancho Mameluco também não tem energia elétrica.
A construção da casa é de pau-a-pique
e o chão mostra aquela irregularidade das construções
artesanais. Não tem forro e uma tubulação
de ferro passa dentro do
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fogão
para esquentar a água do banho. Um luxo! Melhor aproveitado
com todas as velas acesas e a deliciosa combinação de
vaca atolada - prato típico da região, um cozido
de carne numa pasta de mandioca - com uma verdura que eles chamam
de azedinha.
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A
Cachoeira dos Veados fica a uns dez minutos de caminhada do
Mameluco. Aproveitamos a manhã toda para nos deliciarmos
com sua beleza. Não é possível entrar
debaixo da queda d'água, pois a sua força é
descomunal. O jeito foi nadar no rio, alguns metros à
frente. Quando o Marcelo me perguntou se já estava
legal e se poderíamos voltar, recusei. Minha vontade
era nunca mais sair de lá.
Para
tirar o suor da caminhada de volta ao Rancho Mameluco, entramos
no Rio Mambucaba, que fica logo em frente. O Marcelo apareceu
com uma máscara de
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mergulho
e curtir o ambiente subaquático foi bem interessante. Agarrar
nas pedras no fundo do rio e deixar o corpo mole, foi relaxante.
E ainda
tem os peixinhos que nadam à sua frente. Um outro mundo.
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Nosso
último dia foi a descida final pra o litoral. Algumas
poucas horas de trilha, curtindo as pedra do calçamento
antigo, e cruzamos com o Rio Mambucaba, lá em baixo,
na planície litorânea. E mais uma boa surpresa
ao encontrarmos o pessoal do Hotel do Bosque nos esperando
para uma descida de rafting. Concluir essa grande aventura
com um rafting foi tudo o que eu havia pedido. O tempo estava
perfeito, o sol a pino e as águas geladas do rio foram
como refresco aos cansados músculos do corpo.
A
união desses esportes -
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mountain
bike, cavalgada, caminhada, rafting - à história do
nosso Brasil e à bela e preservada região do Parque
Nacional da Serra da Bocaina tem tudo para dar certo se trabalhada
de forma sustentável. São parcerias como essa, com o
Marcelo, que o governo e o Ibama deveriam investir mais, uma vez que
o Estado não se mostra plenamente capaz de administrar nossas
Unidades de Conservação.
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Não
tenho dúvida de que você também vai gostar.
Uma boa prosa com os moradores locais, que hoje são os
guias dessa região, sua culinária e seu jeito
de viver, mais esporte e história, fazem desse lugar
um grande destino. Já estou me programando para voltar. |
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