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Um
dia eu vi fotos sobre Monte Roraima e foi paixão à primeira vista
e que me consumiu durante cinco anos. Finalmente, em novembro de
2005 meu sonho seria realizado e lá fui eu, mochila nas costas,
subir o enorme paredão de pedra. Parecia que eu estava em terra
de gigantes. Mas ao chegar no topo descobri que o Monte Roraima
é o próprio gigante daquela natureza pura, cujo topo é enfeitado
por flores, lagos, formações rochosas de milhões de anos, cristais
esparramados pelo chão, sobre os quais se pode andar, sentar, meditar.É
uma trilha longa, com a neblina tomando conta do espaço. Lá em cima,
não se sente o tempo passar e os sons captados são apenas os dos
próprios passos e do vento. À noite, as estrelas surgem uma a uma,
formam grupos e se estendem por todo o céu. É um momento de grande
prazer.
Nós
éramos dez expedicionários, bem organizados sob o comando em terra
pelo Magno. Mas lá em cima, quem mandava de verdade eram José e
Léo, os dois guias venezuelanos. E mais os índios que carregaram
nas costas nosso acampamento.
Falar
dos amigos com quem vivi esses dias é muito bom, pena que não dá
para relatar todos os segundos que ali passamos.
Marina
tem um modo delicado de falar. E foi dessa forma que, comentando
sobre cavalos, ela disse que jamais subiria num , a não ser que
tivesse um motorista.
Takako
sofre de claustrofobia. Imaginem só a noite que ela deve ter passado
numa barraca que servia de proteção para mini-minhocas. Além disso,
falava coisas muito engraçadas, mas que talvez a censura não deixe
passar.
Lucília,
companheira de trilhas passadas, trocou o cajado pela máquina fotográfica.
Mística, amante de tudo o que é natural, caminhava quieta, os ouvidos
abertos aos sons que muitas vezes só ela ouvia. Por exemplo, o clique
de suas fotos.
Tereza, sorriso suave, fala mansa, era a mais nova do grupo. Cansada
e suada, a noite escura, tudo contribuiu para um banho no rio. Enquanto
se banhava, deslumbrada com o cenário cinematográfico, não percebeu
que aquele brilho todo à sua volta não eram estrelas e sim lanternas
que iluminavam seu corpo.
Luís
Augusto, que a princípio parecia muito sério, ganhou o apelido de
Mauricinho, sempre de cabelos penteados, também cortava e lixava
as unhas. Lavava suas roupas todos os dias, mas até o final não
se conformava em ter de carregar os sacos plásticos que nos serviam
de banheiro.
Vitor,
um argentino bem humorado, era o mais econômico com as roupas. Todas
às noites dava um jeito de lavar a cueca, mas no dia seguinte era
obrigado a pendura-la na mochila para secar. Decidiu não fazer a
barba, só para assustar a esposa quando chegasse em casa, que, com
certeza, não o reconheceria.
Osíris
veio lá do Paraná, chefe de escoteiros dava um baile em todos nós.
Ninguém conseguia alcançar seus passos. Conhecedor da natureza,
Osires teve seu momento de êxtase: um beija-flor pousou em seu dedo.
Cláudio,
carioca acostumado ao calor de 40 graus, caiu de para quedas no
frio de Monte Roraima.Tinha apenas duas bermudas, duas camisetas,
um moletom. Nem boné ele levou. Mas seu olhar era o de que jamais
veria coisa parecida àquele paraíso.
Alécio,
agora é a sua vez. Você nos conduziu muito bem e tenho certeza que
essa foi uma das melhores experiências da sua vida. Isso graças
a mim, teimosa como uma mula, que falou no seu ouvido para fazer
a viagem. Viu como tudo deu certo? Espero que agora você não vai
achar malucas as viagens que invento.
Falar
de mim é estranho, difícil dizer coisas de nós mesmos. Enfim, admito
que o Alécio tem razão com minha teimosia e também reconheço que
sou muito desligada, a ponto de confundir a água da cachoeira com
a da chuva. Atrapalhei-me com a capa, os óculos, pulava em pedras
erradas, dei trabalho para atravessar os rios. Herdei a barraca
de minhoca da Takako. Mas não posso deixar de dizer que a emoção
quase me derruba no fim da trilha e que valeu a pena sonhar, insistir
no sonho, pois só assim ele se torna realidade.
Esta
crônica é dedicada a Orlinda, que machucou o pé em Boa Vista e não
pode nos acompanhar até o topo do Monte Roraima.
Ema
de Moraes Janeiro/2006
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