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Tudo
encanta na Serra do Cipó: suas flores minúsculas e
coloridas, formando imensos jardins perfumados, que rodeiam a trilha
de pedras milenares; o canto das aves que brincam de esconde- esconde
entre as folhagens; a água pura do rio, que corre fresca
por toda a serra.
Nossa
viagem começou com a parte alta da cachoeira do Taboleiro,
uma queda de 273 metros, despejando, através do abismo, suas
águas cristalinas num poço de 100 metros de diâmetro
e profundidade infinita.
Depois
do êxtase dessa paisagem que só Minas Gerais tem, já
noite chegamos à casa de d. Maria, construída num
pedaço de terra aonde só o vento chega e só
as mulas servem como meio de transporte. Camping montado, noite
de estrelas e lua clara nos levam a um sono profundo. A manhã
chega rápida e começamos a andar novamente, desta
vez em direção à parte baixa da cachoeira,
onde a visão do seu profundo poço é confundida
com um templo sagrado, onde só os iniciados entram. Fim de
dia, a noite nos pega no meio do nada. Mas com lanternas e a chegada
dasse estrelas chegamos à casa de outra moradora da serra,
d. Ana, que nos esperava com uma enorme panela de ferro e seu feijão
cozido em fogão à lenha.
Amanhece
o domingo de Páscoa. E lá vamos nós embora,
como andarilhos desbravando o sertão, rumo à Lapinha,
um vilarejo onde se reúnem as estranhas tribos dos chamados
bicho - grilo.Nossos jipes atrasaram para nos buscar ali, mas a
espera foi proveitosa, pois assim pudemos conhecer como se vive
num lugar tão longe das nossas cidades.
Segunda-feira
foi nosso último dia triste porque era o momento de voltar
a São Paulo. No ônibus, sentada lá no fundão
e já respirando a saudade do Cipó, passei a observar
meus companheiros de trilha, cansados, pernas e corpos doloridos,
mas o olhar orgulhoso de suas vitórias.
Rosa,
que eu já conhecia de outra viagem, com seu jeitinho preguiçoso,
ligou seus turbos montanha acima. E sem reclamar do sol e das alturas.
Ione,
tão tímida, quieta e prestativa, andou firme, em passos
cadenciados e com fôlego de invejar.
Helena,
de pele tão clarinha, absorveu muito rápido a calmaria
da serra.a cheiro do verde lhe enchia os pulmões, enquanto
corria como uma criança em busca de sua liberdade.
Rosemar,
delicada e de voz infantil, deu algumas reclamadas do sol e da mochila.
Andou devagar, porém mostrou de que é capaz de cumprir
uma missão.
Aimara
quase pifou nas subidas, reclamou da escuridão no fim da
trilha. Bebeu muita água e enjoou. Coitada, nem conseguiu
jantar. Mas no dia seguinte estava pronta para tudo, firme como
a rocha.
Cristiane,
sempre com uma palavra doce para cada companheiro. Atleta, parecia
estar apenas passeando num bosque.
Augusto
estendia a mão a quem precisasse, mas foi muito difícil
acompanhar seu ritmo.
Washington,
nosso guia,tem uma carinha de menino levado, mas é só
aparência, pois ele nem pensa em dar moleza.
Buiu,
nativo do Cipó, mesmo disparando como se estivesse correndo
uma maratona, não perdia a concentração e de
olhos bem abertos vigiava cada um de nós.
Preciso
citar também os quatro jovens mineiros que percorreram os
campos do Cipó junto com o grupo da Namaste. Eram quatro.
Felipe e Humberto, que marcaram o estilo Indiana Jones. Destemidos,
encontraram a trilha certa, num momento que eu achava estar perdida.
Zana parecia acostumada a aventuras. Dava uma de mãezona
dos amigos e, de vez em quando, eu a ouvia dar- lhes umas broncas.
Sara, minha menininha tão jovem , encheu os pés com
bolhas, torceu o joelho e mesmo mancando chegou ao fim do passeio.
Aos
quatro mineiros, não sei se um dia nos veremos novamente,
saibam que os adotei como filhos e que jamais esquecerei de seus
sorrisos de côco e do delicioso sotaque de doce de leite.
Quanto
a mim, só posso dizer que se um dia voltar à Serra
do Cipó, quero me perder em suas matas floridas, beber a
água fresca dos seus rios e abraçar o vento que me
fez tão feliz durante quatro dias.
Ema
de Moraes
Abril/2003.
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