Cipó, um jardim florido
abril 2003
 
   

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Tudo encanta na Serra do Cipó: suas flores minúsculas e coloridas, formando imensos jardins perfumados, que rodeiam a trilha de pedras milenares; o canto das aves que brincam de esconde- esconde entre as folhagens; a água pura do rio, que corre fresca por toda a serra.

Nossa viagem começou com a parte alta da cachoeira do Taboleiro, uma queda de 273 metros, despejando, através do abismo, suas águas cristalinas num poço de 100 metros de diâmetro e profundidade infinita.

Depois do êxtase dessa paisagem que só Minas Gerais tem, já noite chegamos à casa de d. Maria, construída num pedaço de terra aonde só o vento chega e só as mulas servem como meio de transporte. Camping montado, noite de estrelas e lua clara nos levam a um sono profundo. A manhã chega rápida e começamos a andar novamente, desta vez em direção à parte baixa da cachoeira, onde a visão do seu profundo poço é confundida com um templo sagrado, onde só os iniciados entram. Fim de dia, a noite nos pega no meio do nada. Mas com lanternas e a chegada dasse estrelas chegamos à casa de outra moradora da serra, d. Ana, que nos esperava com uma enorme panela de ferro e seu feijão cozido em fogão à lenha.

Amanhece o domingo de Páscoa. E lá vamos nós embora, como andarilhos desbravando o sertão, rumo à Lapinha, um vilarejo onde se reúnem as estranhas tribos dos chamados bicho - grilo.Nossos jipes atrasaram para nos buscar ali, mas a espera foi proveitosa, pois assim pudemos conhecer como se vive num lugar tão longe das nossas cidades.

Segunda-feira foi nosso último dia triste porque era o momento de voltar a São Paulo. No ônibus, sentada lá no fundão e já respirando a saudade do Cipó, passei a observar meus companheiros de trilha, cansados, pernas e corpos doloridos, mas o olhar orgulhoso de suas vitórias.

Rosa, que eu já conhecia de outra viagem, com seu jeitinho preguiçoso, ligou seus turbos montanha acima. E sem reclamar do sol e das alturas.

Ione, tão tímida, quieta e prestativa, andou firme, em passos
cadenciados e com fôlego de invejar.

Helena, de pele tão clarinha, absorveu muito rápido a calmaria da serra.a cheiro do verde lhe enchia os pulmões, enquanto corria como uma criança em busca de sua liberdade.

Rosemar, delicada e de voz infantil, deu algumas reclamadas do sol e da mochila. Andou devagar, porém mostrou de que é capaz de cumprir uma missão.

Aimara quase pifou nas subidas, reclamou da escuridão no fim da trilha. Bebeu muita água e enjoou. Coitada, nem conseguiu jantar. Mas no dia seguinte estava pronta para tudo, firme como a rocha.

Cristiane, sempre com uma palavra doce para cada companheiro. Atleta, parecia estar apenas passeando num bosque.

Augusto estendia a mão a quem precisasse, mas foi muito difícil acompanhar seu ritmo.

Washington, nosso guia,tem uma carinha de menino levado, mas é só aparência, pois ele nem pensa em dar moleza.

Buiu, nativo do Cipó, mesmo disparando como se estivesse correndo uma maratona, não perdia a concentração e de olhos bem abertos vigiava cada um de nós.

Preciso citar também os quatro jovens mineiros que percorreram os campos do Cipó junto com o grupo da Namaste. Eram quatro. Felipe e Humberto, que marcaram o estilo Indiana Jones. Destemidos, encontraram a trilha certa, num momento que eu achava estar perdida. Zana parecia acostumada a aventuras. Dava uma de mãezona dos amigos e, de vez em quando, eu a ouvia dar- lhes umas broncas. Sara, minha menininha tão jovem , encheu os pés com bolhas, torceu o joelho e mesmo mancando chegou ao fim do passeio.

Aos quatro mineiros, não sei se um dia nos veremos novamente, saibam que os adotei como filhos e que jamais esquecerei de seus sorrisos de côco e do delicioso sotaque de doce de leite.

Quanto a mim, só posso dizer que se um dia voltar à Serra do Cipó, quero me perder em suas matas floridas, beber a água fresca dos seus rios e abraçar o vento que me fez tão feliz durante quatro dias.

Ema de Moraes
Abril/2003.

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