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O Paraíso Perdido |
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Ilha do Cardoso, paraíso perdido num pedaço do Atlântico. Sem luz elétrica e veículos automotores, poucos habitantes. Foi aí que a Namaste aportou seu barco, com 25 pessoas a bordo. Esperando-nos na ilha, a general Luzinete, em seu uniforme de gala, anunciando seu comando e regras a seguir. Mas toda essa rigidez se desfaz quando ela entra na mata e com muita doçura nos mostra os mimos da natureza. Seu coronel imediato é o Alécio, sempre pronto a servir. Desta vez ele nem aprontou. Longe da Márcia, parecia estar com a cabeça no lugar. Puro engano: fez o lanche só com uma fatia de pão e uma de queijo. O sorteado foi o Beto, que, faminto e inconformado, olhava triste para seu pequeno almoço. Por falar no Beto, ele não toma mesmo jeito com a mochila. Nega-se a carregá-la, jogando suas tralhas nas minhas costas. Um fato muito interessante aconteceu na trilha da praia. O Charley, ajudante de ordens do Alécio, achou uma garrafa coberta de conchinhas. E sabem o que tinha dentro? Um bilhete vindo da Califórnia, com data de 12 de outubro de 1982. E um dólar, o primeiro dos milhões que ele está decidido a juntar. Agora, vou falar da valente Cici. Comprou uma barraca nova e quem compra quer usar. Por isso, privou-nos de sua companhia na pousada. E também na caminhada pela praia: com seu cajado e ar zen, tomou quilômetros de distância e só a encontramos no jantar. Como pude notar, este foi um pelotão muito unido. Como cada um de nós sorteou um anjo da guarda, todos se ajudavam, tentando a cada momento descobrir quem era seu protetor. Falando em anjo, o da Sonia extrapolou com mimos. Mandava-lhe doces, cervejas, pastéis e até músicas. Eu não conhecia a Cirlene. Divertida, de alto astral, ganhou o prêmio do esquecimento. Na pousada de Cananéia deixou o pijama, calcinha e sutiã. Acho que ela precisa contar essa história melhor. E o Celso, tão apressado, não percebia quando alguém parava e provocava encontrões. Eu mesma muitas vezes tropecei nele. Sabem o que é isso? Marinheiro de primeira viagem. Graciela já é veterana, não se atrapalha com nada, principalmente agora que o joelho não a incomoda mais. Sabem qual a sua novidade? Está aprendendo luta oriental e já é quase faixa preta e tem como meta ficar na ilha e montar ali uma academia. Um aviso a todos: cuidado com ela! Ana Lúcia, de tão quieta, me deixou preocupada. No meio de toda aquela vegetação verdinha, senti medo dela desaparecer. Nem seus passos eu ouvia e, de repente, sobressaltos: se ela se perder, nem seus olhos vamos ver, porque eles tem a cor de algumas das folhinhas. Kareen já conhecia a ilha e um monte de gente. Espirituosa, seus olhinhos parecem binóculos, captam tudo o que acontece, seja qual for a distância. Sabe exatamente onde está a árvore e flor das quais tanto gostou e que a arrastam mais e mais vezes para esse nosso paraíso. E lá vêm a Sandra e a Mariane, amigas de longa data. No primeiro dia resolveram não subir o morro e ficaram na praia nos esperando, horas a fio, cheias de paciência, debaixo da chuva, tentando ler seus livros impermeáveis. Mariane, na próxima viagem, prometeu levar sua flauta, ou quem sabe o piano? Ana Lícia, historiadora nata, para cada coisa tinha uma história. Adora água, por isso, a partir de agora, será chamada a mulher peixe da Namaste. Mesmo com a temperatura do mar abaixo de zero estava ela furando as ondas. Júlio era chamado de Já Que Custou, não me perguntem porquê. Era tanta coisa para guardar que eu nem lembro mais qual foi o motivo do apelido. Ele deve saber. Outra do Júlio: foi à praia de madrugada e encontrou uma sereia, vindo a seu encalço com seu canto sedutor. Camila também é quietinha, tem só 17 anos e na hora do embarque não conseguia se livrar a sombra da mãezona, que a recomendou, muito séria, ao Alécio. Sorte dela que teve um anjão às suas costas, assim a mamãe vai nos emprestar a filhota nas próximas viagens. Marina me deixou de boca aberta, fugindo dos 8 km de caminhada pela praia. Justo ela que já fez trilha até no meio dos vulcões do Japão. Ângela eu conheci em outras viagens. E aqui confirmo que a baixinha é um zás-trás. Quando a gente pensa que ela está aqui, ela está lá. Além disso, descobri que ensinou ioga para as colegas de quarto, para livrá-las do stress. Liliana é outra do time das quietas, mais do que isso, das caladas. Em alguns momentos achei que a moça era muda. Mas foi um alívio ter almoçado ao seu lado, pois assim pude conversar com ela e ouvir um pouquinho da sua voz. Vivian fala manso, anda bem e não reclama de nada. Penso: deve ser a síndrome de quem não conhece os companheiros. Mas não, ela é assim mesmo, tranqüila, doce, enigmática como a areia que o vento leva para o infinito. A dupla Renate e Nathalie é perfeita, claro, mãe e filha, só podia ser assim. Gostei de vê-las curtindo tudo juntas, rindo juntas, cochichando, tão diferentes de tantas mães e filhas que existem por aí. Agora vou fofocar sobre o Fernando. Garoto bom está aí. Só que, como queria caminhar sozinho, para não levar mochila de ninguém, despachou a mulher, Helenice, para a pousada. Mas tenho certeza de que ela não ligou, pois, junto com a Renate e a Sonia, formou o clube da Rede, Tronco, Trono- RTT, da qual se tornou presidente. O ponto alto da viagem foi a preparação do casamento da Sandra Regina com o Alexandre, que mora na Itália e nem sabe o que está acontecendo por aqui. Vão se conhecer no próximo reveillon e o casório será na Ilha do Cardoso, numa capela muito charmosa. E a festa, na cidade fantasma. A Sandrinha está toda entusiasmada e já fez sua grinalda, toda de conchinhas brancas do mar. Entrando no clima de casamento, decidimos formar mais um casal. A Zélia está prometida para o seu Zé. Zezélia. Lindo, né. Olha, Zelinha, não adiante discutir, pois a Namaste decidiu e pronto. Esperaremos para ver. Amigos, até a próxima. Ema de Moraes
out.2004 |
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