Serra da Canastra - reveillon 2001/2002

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Passar o Reveillon na Serra da Canastra! AH! Que sonho! Sem o barulho da cidade grande, apenas árvores e pássaros. No momento da partida, a expectativa de 40 pessoas. Feito o check-out, a rápida escolha dos lugares no confortável ônibus leito, com direito a lanche.

Os amigos recordam momentos inesquecíveis de viagens anteriores. Os novatos, reticentes, sorrisos e gestos tímidos. O ônibus parte debaixo de chuva grossa, encalha no trânsito. O motorista se perde. A viagem, programada para 11 horas, leva 14.

No início da estrada barrenta, estreita e sem acostamento, vemos o quê? Um ônibus velho, sujo de lama e pneus carecas. Provavelmente sucateado. Será que chega a seu destino? É a pergunta nos olhos de cada um. O motorista, simplório, de fala caipira, percebe o medo em cada rosto e alivia os ânimos, dizendo que seu veículo, embora com aquela aparência desgastada, estava apto a nos transportar por aquelas estradas tão distantes.

Mais tranqüilos, acomodamo-nos entre malas e mochilas, pois devido às fortes chuvas, desde o Natal, o bagageiro estava alagado. Os bancos cheiravam a mofo, mas o motor corresponde à partida. Mesmo rangendo, sai para seu destino. Lá fora, a chuva implacável não dava trégua, entrando por todas as frestas, que não eram poucas, molhando assentos e cabeças. Aquilo mais parecia uma jardineira do início do século passado e por isso a apelidamos de "marinete".

Quando começamos a cochilar, a marinete estanca, com os pneus atolados. No linguajar da região, ela havia "garrado". Metade dos passageiros desce e livra o veículo do atoleiro. Entre vivas e aplausos seguimos caminho. Em menos de dez minutos, o ônibus pára de novo. E de novo desde metade dos passageiros. Nem a boa vontade consegue tirar aquelas rodas da lama. Chega nosso socorro na figura de um trator. Depois de muitas tentativas com correntes e cabos de aço, podemos prosseguir viagem. Mas a alegria dura pouco e a marinete "garra" pela terceira vez. E muitas outras vezes até chegar na tão esperada pousada.

Enfim o repouso. A chuva não para e ninguém sai dos quartos. Quem ficou na casa grande estava bem, pois lá tinha a cozinha, com biscoitos e café. Os que se hospedaram no que chamamos de senzala - chalés - tinham de enfrentar as poças barrentas se quisessem se aquecer junto às chamas do fogão à lenha. Pior condição enfrentaram os hóspedes do "vale dos exilados". Uma distância tão grande que lá só se chegava de caminhonete.

Até que o domingo amanheceu tranqüilo. Um sol fraco, mas sem chuva, nos deu disposição para pôr as mochilas nas costas e caminhar pelas trilhas até a bela cachoeira Casca D'Anta, com seus 186 metros de altura. Foi um dia cheio de humor. Muitas risadas e conversas para se jogar fora. Cansados de subir e descer morros, atravessar rios, pular rios, uma cobrinha aqui, um monte de mosquitos nos perseguindo, voltamos à pousada para o banho quente, a janta e a cama. Mas quem disse que alguém conseguir dormir? Uma vaca muge madrugada adentro, chamando por seu querido bezerro.

Segunda feira, véspera do Ano Novo. Nova caminhada, mais cachoeiras e os preparativos para a ceia. Das janelas dos quartos, observávamos o céu sobre aquelas terras e o que nos chama a atenção? Nossa marinete estacionada em frente à casa grande, sozinha, enlameada, desconsolada. Daí a idéia: o precioso veículo faria parte de nossa festa. Com fitilhos e laços a fantasiamos.

Hora da ceia. Bocas mastigando rápido à espera da meia-noite. O momento se aproximava. As champanhas nas mãos da ala masculina. 2001 começa a se despedir. Apenas 1 minuto. 10, 9, 8,... a contagem regressiva entusiasma. 7, 6, 5,.... os dedos prontos para os estampidos; 4, 3,... gritos e risadas; 2, 1, Feliz Ano Novo. As rolhas não estouram. Até facas tentam arranca-las, cortando-as pela metade. Nova contagem regressiva. 10, 9, 8, 7, 6... uma rolha estoura; 5, 4, uma continua firme. A garrafa é espancada. Nada. 3. 2.. desespero. 1, a espuma jorra sobre nós. Pronto, agora sim, podemos saudar 2002. Abraços, saudações; forma-se o trenzinho ao redor da marinete. Todos entram nela, com as taças nas mãos. Seus faróis acendem e ela parte, buzinando, ao redor da pousada.

A festa continuou, teve até dança do ventre. Mas o show atinge o auge com a apresentação do "Grupo Taleban", formado por alguns hóspedes, a espera de alguém que os transformassem em ídolos.

Enquanto isso, a dona da pousada, já nos seus 70 anos, mandava ver sua cervejinha. A princípio, escondida; depois, perdeu a vergonha. Com a garrafa na mão, entrou no meio das danças e rodopiou até o fim da madrugada, um tanto quanto zureta, sentindo-se uma princesa.

Ema de Moraes
Jan/2002

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