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Eram
duas horas da madrugada e o frio intenso nos acompanhava desde a
despedida do sol no dia anterior. Os isolantes térmicos, combinados
com sacos de dormir, não foram suficientes para aquecer o corpo
submetido a uma temperatura de seis graus negativos. Tampouco a
ansiedade quanto ao que estaria por vir nos permitiu algumas horas
de bom sono. Acordei com a sensação de estar saindo de um pesadelo.
Contudo, o sonho estava apenas começando, aliás, mais um que estava
preste a se realizar dentre muitos que ainda tenho. Com o corpo
ainda cansado da caminhada que antecedeu nossa chegada ao acampamento,
começamos a remontar as mochilas, que agora ficaram leves, pois
vestimos quase toda a roupa que carregamos até ali, para, em seguida,
iniciarmos a ascensão ao cume da terceira montanha mais alta do
Brasil: o Pico da Bandeira, com seus 2.897 metros de altitude.
Durante
o caminho, sob as estrelas e a lua quase cheia, encontramos milhares
de trilheiros que também rumavam para o cume e, à metade do caminho,
o espetáculo já era deslumbrante. Olhando-se para baixo ou para
cima, via-se uma linha luminosa traçada pelas lanternas daqueles
que percorriam a trilha. Cada qual com seu truque para driblar o
cansaço e o frio, parando para descansar ou carregando cobertores,
todos tinham um só objetivo: assistir à alvorada lá de cima.
A expectativa
de chegar ao topo era avultada pela total ausência de visão, uma
vez que não conseguíamos enxergar o final da trilha ou mesmo o contorno
da montanha em meio à escuridão. A linha luminosa à nossa frente
já era mais curta e desaparecia numa curva da trilha - mas sabíamos
que ali ainda não era o final.
A previsão
do tempo havia indicado que o sol nasceria às 6h16min. Chegamos
ao topo às 6h. Ali, a sensação térmica era ainda mais intensa que
na barraca, quando acordamos. O vento constante entrava por toda
e qualquer fresta da roupa, as extremidades do corpo perderam a
sensibilidade e a capacidade de movimento, mas os olhos e a mente
estavam congelados por outra razão: a espetacular terceira vista
mais alta do Brasil. O sol começou a despontar no horizonte, até
então invisível pela escuridão, e um mínimo resquício de luz foi
suficiente para iluminar toda a paisagem. A cada segundo, as montanhas,
nuvens e céu iam tomando colorações diferentes, como se estivéssemos
a cada instante em um novo lugar.
Tão
logo o sol se mostrou por inteiro, iniciamos a descida - impossível
ficar ali por mais de quinze minutos. Mas a brevidade do momento
não diminuiu aquele espetáculo da natureza, que revela sem malícia
todos os seus segredos e se entrega por inteiro em um apelo pela
preservação, não só em nossa memória, daquilo que considero o maior
legado da humanidade.
Lígia
Maul Maltes
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